EYFDM Pre-Conference Exchange, EYFDM Pre-Conference e 30th WONCA Europe Conference 2026
Entre 25 de junho e 3 de julho de 2026, troquei temporariamente o Porto pelo norte de França para participar em três experiências diferentes: o EYFDM Pre-Conference Exchange, em Tours, a EYFDM Pre-Conference e a 30th WONCA Europe Conference, em Paris. Foram dias intensos, cheios de consultas, workshops, conversas, reencontros e novas amizades, bem como uma oportunidade para olhar para a nossa especialidade a partir de outros contextos. Foram 21 os médicos europeus selecionados para participar no EYFDM Pre-Conference Exchange, 3 dos quais portugueses. Fomos posteriormente distribuídos pelas várias regiões francesas, sendo que a mim calhou-me a região Centre-Val de Loire.
A minha experiência começou, então, em Tours, a cerca de uma hora de comboio da capital, onde iria, posteriormente, ter lugar o grande congresso. Tours, com a sua tranquilidade junto ao rio Loire, foi o cenário perfeito para começar esta experiência e conhecer de perto o quotidiano da Medicina Geral e Familiar em França. A cidade tem cerca de 139 mil habitantes, com uma população relativamente jovem, com índice de envelhecimento inferior em relação à minha habitual área de atuação (171.5 e 135.9 idosos por cada 100 jovens, em Gondomar e Tours, respetivamente).
Apesar da sua riqueza histórica e cultural, Centre-Val de Loire é a região francesa com menor densidade de médecins généralistes (nome dado aos profissionais com formação e área de atuação semelhante aos nossos médicos de família), sendo que cerca de 25% da sua população não tem, atualmente, um médecin traitant (médico assistente). Esta realidade tornou a observação clínica particularmente interessante, permitindo conhecer algumas das respostas locais aos desafios da escassez médica e do acesso a um médecin traitant.
Fui recebida pela Dra. Alice Perrain, que muito amavelmente abriu as portas de sua casa e do seu consultório para me mostrar o seu dia-a-dia. Durante dois dias, acompanhei a sua prática clínica e pude observar, de forma muito prática, como se organizam os Cuidados de Saúde Primários em França e o dia-a-dia de um médecin généraliste: a dinâmica das consultas, a gestão dos problemas agudos e crónicos, a relação com os doentes e a articulação com outros profissionais e níveis de cuidados.
Em termos organizacionais, a realidade francesa é bastante diferente da portuguesa. Os Cuidados de Saúde Primários podem organizar-se em diferentes estruturas: o cabinet médical, geralmente um consultório privado individual ou partilhado por médicos; o centre de santé, uma estrutura multiprofissional onde os profissionais são liberais e assalariados; e a maison de santé, que reúne profissionais de saúde de diferentes áreas num projeto de saúde comum e coordenado. Cada ato de saúde prestado é registado sob a forma de código nas notas da consulta e está associado a um custo, custo esse tabelado e igual em qualquer umas destas três estruturas. Quem faz esse registo é o próprio médico, que tem de estar muito familiarizado com esta tabela de custos. O utente não paga nada, exceto uma taxa moderadora, que é registada e cobrada pelo próprio médico, no final da consulta. Os profissionais de saúde liberais (tanto em cabinet médical como em centre de santé) suportam todos os gastos relacionados com o estabelecimento, materiais e recursos humanos, e ganham conforme as consultas e atos prestados, bem como tendo em conta indicadores de desempenho. A minha orientadora é a proprietária do centre de santé onde trabalha, bem como presidente da associação de médicos liberais da região, pelo que pude conhecer bem a realidade organizacional dos Cuidados de Saúde.
Consegui perceber que, tanto os profissionais de saúde como os utentes, têm uma boa noção dos custos associados a cada ato médico, sendo algo que é discutido de forma muito natural durante a consulta. Este facto, aliado à presença de uma taxa moderada e uma boa triagem do motivo de consulta feita pela assistente operacional é, segundo a minha orientadora, essencial para uma boa gestão de recursos, valorização dos cuidados de saúde e evicção de sobreutilização da consulta por motivos inapropriados.
Fui também convidada a participar numa reunião que ocorreu entre médecins généralistes da região e médicos do serviço de Geriatria do hospital de referência, recentemente inaugurado. O objetivo foi estabelecer uma boa rede de contacto entre profissionais de saúde dos Cuidados Primários e Secundários, com o intuito de facilitar os internamentos por via direta (em detrimento dos internamentos com porta de entrada pelo serviço de urgência) e a continuidade dos cuidados das pessoas mais velhas no pós-alta. Sendo que o ano passado realizei um estágio num hospital geriátrico no sul de França, foi bom poder perceber a realidade numa outra zona do país, bem diferente, bem como poder partilhar a minha experiência e insight. Este tipo de intercâmbio convidou-me a observar com curiosidade, concluindo a presença de pontos fortes e fracos em ambos os sistemas.
De Tours segui para Paris, onde decorreram os dois dias da EYFDM Pre-Conference e, posteriormente, os três dias da 30th WONCA Europe Conference. Se o intercâmbio tinha sido uma imersão na prática clínica, a pré-conferência foi um espaço de aprendizagem entre pares, criado especificamente para jovens médicos de família europeus. O ambiente foi descontraído e convidava à participação. Em vez de apenas assistirmos às apresentações, fomos convidados a discutir, experimentar, refletir e partilhar aquilo que funciona, ou não, nos nossos locais de trabalho.
O programa foi muito diverso: desde a organização de um dia de trabalho em MGF à entrevista motivacional, investigação, medicina narrativa, inteligência artificial, liderança e prevenção do burnout. Houve também espaço para discutir inclusão, ética em saúde global e os efeitos das alterações climáticas na prática clínica. Esta diversidade mostrou bem como ser médico de família hoje exige muito mais do que conhecimento biomédico: exige capacidade de comunicação, adaptação, liderança, pensamento crítico e cuidado connosco próprios e com as equipas com as quais trabalhamos.
Uma das reflexões mais interessantes surgiu em torno de uma pergunta aparentemente simples: o que faz um bom médico de família? As respostas foram naturalmente distintas, mas regressavam repetidamente ao modelo biopsicossocial, à capacidade de acompanhar ao longo do tempo, à defesa dos doentes e das comunidades e à disponibilidade para ouvir. Num momento em que a pressão assistencial facilmente reduz a consulta a tarefas e indicadores, foi importante recordar aquilo que nos levou a escolher esta especialidade.
A pré-conferência teve ainda uma dimensão que considero essencial: a criação de comunidade. Conhecer internos e jovens especialistas de diferentes países, ouvir as suas dificuldades e perceber que muitas são partilhadas, diminui a sensação de isolamento que por vezes acompanha o internato. As conversas nos intervalos, durante as atividades sociais ou no final do dia foram tão valiosas como várias sessões formais. É aí que nascem ideias, intercâmbios futuros, colaborações e amizades.
Seguiu-se a 30th WONCA Europe Conference, sob o mote “Acting for more liberty, equity and fraternity”. Inspirado nos valores da liberdade, igualdade e fraternidade, o congresso procurou transportá-los para a Medicina Geral e Familiar: liberdade na decisão clínica e na organização da prática; equidade no acesso aos cuidados, prevenção e conhecimento; e fraternidade através da colaboração, solidariedade e diversidade.
A dimensão da conferência impressionava, não apenas pelo número de participantes, mas pela variedade de temas e formatos: multimorbilidade, saúde mental, medicina preventiva, prescrição social, fragilidade, cuidados paliativos, continuidade de cuidados, prescrição racional e investigação, conviviam com sessões sobre inteligência artificial, governação clínica e triagem digital. Entre as ideias que mais levo comigo está a necessidade de integrar a inovação sem perder o humanismo. As ferramentas digitais podem apoiar a decisão, facilitar processos e melhorar o acesso, mas não substituem a relação terapêutica, o conhecimento acumulado ao longo do tempo e a capacidade de compreender aquilo que não cabe num campo do registo clínico. Também a continuidade de cuidados, tantas vezes ameaçada por constrangimentos organizacionais, surgiu reforçada como um dos elementos que mais distingue e valoriza a nossa especialidade.
Houve ainda tempo para conhecer Paris de uma forma pouco habitual, incluindo uma visita privada ao Museu do Louvre. E igualmente a oportunidade de conhecer novos colegas e rever amizades. Estes momentos sociais não foram apenas um complemento ao programa, ajudaram a aproximar pessoas de países, sistemas e percursos muito diferentes, dando continuidade às discussões iniciadas nas salas do congresso num ambiente mais informal.
Regressei ao Porto cansada, mas com aquela energia particular que surge quando saímos da rotina e voltamos a olhar para o nosso trabalho com curiosidade. Esta semana recordou-me que a Medicina Geral e Familiar é simultaneamente local e universal, nascendo da relação continuada com a comunidade. Aos colegas internos, deixo sobretudo o incentivo para procurarem estas oportunidades. São oportunidades que nos permitem ganhar perspetiva, criar redes, descobrir outras possibilidades dentro da especialidade e regressar com novas perguntas e, por vezes, são precisamente essas perguntas que mais nos fazem crescer.
Deixo também o meu agradecimento especial à EYFDM e à APMGF pelas oportunidades que nos proporcionam e à Dra. Alice Perrain pela gentileza com a qual me recebeu.
Maria Branca Moura Cunha · Interna do 4.º ano de Medicina Geral e Familiar (USF Despertar, ULS de Santo António)



















