A médica de família na Unidade de Saúde Familiar (USF) Lagoa e docente do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar Raquel Braga tornou-se a mais recente doutorada com origem na MGF, ao concluir no passado dia 30 de junho, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), as suas provas de doutoramento em Saúde Pública, tendo apresentado a tese «Prostate cancer screening in Portugal: adherence, practices, and views from different stakeholders».
O júri destas provas foi presidido por Carla Lopes (FMUP) e integrou como arguentes Bruno Heleno (NOVA Medical School) e Pedro Teixeira (Escola de Medicina da Universidade do Minho). Participaram ainda como elementos do júri Inês Rosendo (Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra), Natália da Costa Araújo (FMUP), Ana Rute Costa (FMUP) e o orientador da tese Nuno Sousa Lunet (FMUP). Os co-orientadores da tese foram Luís Pacheco Figueiredo (Escola de Medicina da Universidade do Minho) e Samantha Ferreira Morais (Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto – ISPUP).
A tese de doutoramento em causa foi desenvolvida com suporte em quatro estudos. Um primeiro estudo transversal levou a cabo análise de dados relativos às atitudes em relação ao cancro da próstata a partir de um inquérito nacional à população geral, cujo objetivo essencial era o de caracterizar o uso do rastreio do cancro da próstata e os conhecimentos, atitudes e práticas dos homens da população geral. A segunda investigação assumiu a forma de estudo transversal baseado em dados do estudo NEON-PC, no qual os doentes diagnosticados com cancro da próstata entre 2018 e 2020 no Instituto Português de Oncologia do Porto foram avaliados antes do tratamento através de uma entrevista estruturada com recurso às ferramentas Medical Term Recognition Test e EORTC Quality of Life Questionnaire QLQ-PR25. A ideia aqui passava por determinar a associação entre as características sociodemográficas e clínicas, comportamentos de saúde e literacia em saúde de doentes com cancro da próstata e o seu estadio prognóstico de cancro da próstata, no momento do diagnóstico. A terceira iniciativa de investigação centrou-se num inquérito nacional online, entre novembro de 2020 e fevereiro de 2021. Foram elegíveis todos os médicos de família inscritos na Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar e todos os urologistas inscritos na Associação Portuguesa de Urologia, tendo ambas as Associações de Médicos enviado os questionários por email. Este estudo revelou diferenças entre os médicos de família e urologistas portugueses no que respeita ao conhecimento sobre epidemiologia e fatores de risco no rastreio do cancro da próstata, bem como às normas de orientação clínica em que baseiam a sua prática. Por fim, a equipa de investigação conduziu um quarto estudo, neste caso qualitativo, nascido de 39 entrevistas com guião semi-estruturado e abarcando diferentes intervenientes em programas de rastreio oncológico de base populacional – quatro gestores de saúde, vinte e dois profissionais de saúde, quatro representantes de pacientes e nove utentes do Serviço Nacional de Saúde. A meta era a de identificar barreiras e facilitadores de adesão, implementação e gestão de programas de rastreio, bem como explorar as opiniões dos diferentes intervenientes acerca do funcionamento destes rastreios em Portugal.
“O principal aporte desta tese, deste conjunto de quatro trabalhos, é oferecer uma caracterização do rastreio do cancro da próstata em Portugal em diferentes eixos. Na população geral, nos médicos – nomeadamente nos médicos de família e urologistas que mais trabalham no rastreio, diagnóstico e tratamento do cancro da próstata – mas também nos doentes com cancro da próstata e em outros intervenientes dos programas de rastreio, nomeadamente nos gestores e decisores em saúde, para além dos utentes, representantes dos utentes e profissionais de saúde. O que se determinou é que quase metade da população adere a este rastreio oportunista e que ele é muito proposto pelos urologistas, mais do que pelos médicos de família, sendo que ambos os médicos têm bons conhecimentos acerca deste tema controverso, mas que realmente baseiam a sua prática em diferentes guidelines e têm atitudes e práticas clínicas diversas”, explica Raquel Braga.
A MF da USF Lagoa acrescenta ainda que a caracterização dos doentes permitiu recolher alguns dados que indiretamente dão a entender “que existem iniquidades no acesso a este rastreio, como aliás no acesso aos cuidados de saúde, como já seria de esperar. Esta tese reflete também a história desta controvérsia, desta evolução da evidência científica, em que diferentes ensaios clínicos e a sua evolução ao longo do tempo têm vindo a proporcionar grandes discussões acerca sobretudo do sobre-diagnóstico, do sobre-tratamento e dos benefícios que este rastreio do cancro da próstata pode trazer”.
Em 2022, surgiu uma proposta da Comissão Europeia para intensificar a luta contra o cancro, que transforma o cancro da próstata, do pulmão e do estômago em cancros prioritários e que propõe programas de rastreio. “Ao longo desta tese também se analisam as opiniões, os conhecimentos e as atitudes dos diferentes intervenientes, que vêm trazer ao de cima esta controvérsia que persiste em torno do eterno balanço do risco e do benefício do rastreio. Mas, à luz dos novos programas organizados e de risco individualizado para grupos de risco específicos, estamos perante a hipótese de avançarmos com alguma cautela e, caso se demonstre viável e sustentável do ponto de vista ético, clínico e económico, avançar para programas que cada vez mais se baseiam em boa evidência de benefícios da mortalidade e de redução dos riscos do sobre-diagnóstico e do sobre-tratamento. Atingimos, portanto, nesta fase a um ponto de viragem num debate que há muito decorre, de facto desde os anos 80, com a introdução do PSA como teste de rastreio do cancro da próstata”, sublinha Raquel Braga.
Sobre a grande viagem que realizou para chegar ao doutoramento, a docente do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar tem uma apreciação extremamente favorável: “iniciei este desafio do programa doutoral numa altura em que tinha terminado funções que desenvolvia a par da minha atividade clínica. Decidi, então, iniciar o programa doutoral de Saúde Pública no ISPUP, que eu conhecia por ter pertencido à sua Comissão de Ética anteriormente. Sabia que era um programa muito bem estruturado, com uma atividade científica muito boa, com muitas publicações e portanto estimulante para mim. Desenvolver o ano curricular foi interessantíssimo, foi voltar à faculdade, conhecer novas pessoas, conhecer também novas formas de pensar e de estar, mas digamos que fazer isto a par da prática clínica a 100% revelou-se difícil. Contudo, os maiores desafios foram na etapa seguinte, no desenvolvimento do projeto da tese, nomeadamente na condução dos estudos que integraram o projeto, porque no meio disto tudo aconteceu a pandemia e todas as dificuldades e exigências inerentes a estas alterações da prática clínica, aos nossos receios e aos nossos contratempos pessoais e familiares“.
Na perspetiva de Raquel Braga chegar até ao fim, completar este itinerário, compara-se a ingressar numa “escola de resiliência e de tenacidade”, mas abandonar a ideia a meio caminho era de todo impossível: “começou a ser quase um desafio pessoal, uma questão de honra terminar este projeto, que tentei conciliar sempre com a minha atividade clínica e de docente, que entretanto também abracei e que continuo a desenvolver. Enriqueceu-me muito, deu-me muitas ferramentas formais e informais para lidar com as exigências da prática clínica, da investigação e também da formação médica contínua. Assim, no balanço geral, posso afirmar que foi uma experiência muito positiva”.

















