Resiliência para o presente, audácia para o futuro

O Encontro Nacional regressou a Tróia pela segunda vez consecutiva, desta vez para a sua 43ª edição, este ano com a vontade e a energia para definir um novo futuro para a MGF. Com esta finalidade deslocaram-se até à península mais de 900 participantes, todos imbuídos do espírito de renovação e excelência, sem se deixarem desanimar pelas condições desafiantes em que a especialidade é exercida em muitos locais do país.

Sobre os tempos atuais, Nuno Jacinto, presidente da APMGF, não escondeu que tem sido necessária uma grande dose de “resiliência e superação constante, que nos faz ser tão bons como o Ronaldo, mesmo que nunca alcancemos o mesmo respeito e valorização por parte de quem o devia demonstrar. Mesmo perante a adversidade, vamos enfrentando cada batalha com determinação, desafio atrás de desafio, com a certeza das nossas convicções e do valor do nosso trabalho”. No seu último Encontro Nacional de MGF enquanto presidente da organização, fez no entanto questão de pintar um quadro futuro mais risonho para os CSP e para a MGF: “por mais escuras que sejam as nuvens que existem no horizonte, temos sempre de cultivar a esperança. Esta esperança tem mesmo de ser a última a morrer. A esperança de que é possível fazer mais e melhor, pelos cuidados de saúde primários e pela MGF, a esperança de que ainda será possível dar um médico de família a todos, ao contrário do que, por exemplo, dizia hoje ou ontem o nosso diretor executivo do SNS numa entrevista ao «Público». E por isso esta esperança não pode ser apenas uma utopia, tem de ser consequente e traduzir-se em algo real e palpável. Já em 2022 dizíamos isso, a MGF deve estar no centro da saúde e já agora no centro de saúde, temos que passar rapidamente das palavras bonitas às ações para que tal se torne realidade”.

E é também urgente respeitar e investir nos profissionais e nas equipas que se dedicam dia após dia, sem reservas, para o bem dos portugueses e para a eficiência do sistema de saúde, frisou o dirigente: “investir na nossa especialidade não é apenas uma questão de justiça para os profissionais, não é fazerem-nos a vontade, é a forma de construir… um futuro melhor, um sistema mais eficiente, humano e preparado para aqueles que são os nossos desafios. Obviamente que, enquanto médicos de família, somos quem está em posição ideal para liderar aquelas que são as mudanças necessárias para a adaptação a uma nova realidade. E sabemos também que temos que ser nós, médicos de família, a assumir a liderança e a apontar o caminho. Porque não tenhamos ilusões… se nós não o fizermos e se não assumirmos esse papel, virá alguém que o fará e fará certamente pior do que nós”.

Margarida Graça Santos foi a convidada da conferência inaugural do evento. A jovem médica de família é alguém com uma visão cosmopolita e humanista, para além de uma das principais influenciadoras na área da literacia em saúde em Portugal, devido a iniciativas como o seu podcast Consulta Aberta, na SIC Notícias. Deixou mensagens positivas sobre o que significa ser médico de família em Portugal, com destaque para a relação muito particular que estes especialistas conseguem estabelecer com quem cuidam, expondo “a concha brilhante que é a MGF” similar às conchas que “quando somos crianças e estamos na praia encontramos”. Para tal recorreu a múltiplos casos de utentes e colegas de unidade com quem foi criando uma relação estável e duradoura. “Tudo aquilo que eu faço é um bocadinho o reflexo das pessoas com quem estou, dos doentes com quem me cruzo”, explicou a oradora, puxando do exemplo do utente idoso que colecionava carros de madeira e que deixou de ser apenas mais um doente hipertenso na lista e no sistema de informação: “percebi que ele também fazia autocarros e, de repente, já estávamos a combinar uma exposição no centro de saúde com os carros dele”. Por entre vários exemplos de histórias de utentes com quem cultivou um elo único, Margarida Graça Santos condensou o princípio essencial a reter: “as pessoas vão à nossa consulta e é positivo tratar a hipertensão e tratar a diabetes e mudar a medicação, mas é tão bom conhecer as pessoas! É tão bom perceber que elas são muito mais do que a sua doença. E nós temos esse poder como médicos também. Nós conseguimos olhar para as pessoas muito para além daquilo que as traz à consulta”.

Tema forte deste Encontro foi o burnout, ilustrado de forma poderosa pelo relato na primeira pessoa de Cláudia Pires, médica de família na USF Beira Saúde, que se viu forçada a parar para prevenir a exaustão completa: “as coisas foram-se adensando, adensando, adensando, e aos poucos, até sem me aperceber, fui perdendo o prazer e o entusiasmo que eu tinha no meu dia-a-dia”. Esta colega realizou psicoterapia, parou durante algum tempo como apoio da equipa e criou assim as condições para avançar com maior solidez. A profissional da Psicologia que a ajudou, Ana Silvestre, explicou que as dúvidas internas são uma barreira importante a ultrapassar nestes casos: “como é que eu, que sou cuidadora, como é que eu, que estou aqui para cuidar dos outros, agora não estou bem? Como é que eu estou num burnout? Como é que eu não aguento? Como é que eu não consigo… Como é que eu posso estar numa situação destas? É muito difícil assumir e reconhecer que chegámos a um nível elevado de exaustão e que, desta vez, não vamos conseguir fazer isto sozinhas. Ou seja, temos um grupo profissional, os profissionais de saúde, que estão tão programados para cuidar que às vezes se torna difícil para eles assumirem que precisam de ser cuidados”.

 

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