Pontas soltas a aparar

O tempo entre as duas grandes guerras, vivido com desassossego e atrito em muitas cidades da Europa Central, é desde há muito campo fértil para a imaginação literária. Ora solta na contemporaneidade dos acontecimentos históricos e das sensações de época, como em «Berlim Alexanderplatz» de Alfred Döblin, ou à sombra(s) das formalidades do «Castelo» de Kafka, que bebia diretamente do clima opressivo de Praga, ora desenhadas mais tarde, a olhar para um passado em que todos os futuros pareciam possíveis.

Assim acontece com a estreia no território dos romances de José Falcão Tavares, fundador do «Jornal Médico de Família», poeta, paladino da Medicina Narrativa e membro sempre empenhado do nosso Clube de Leitura APMGF, cuja obra «O Beijo de Éva Kiss» nos permitirá refletir na próxima sessão do Clube sobre questões como a linha ténue entre a razão e a loucura, as pedras irregulares do caminho que nos levam do trauma à expiação, a descoberta de novas formas de cuidar, mais humanas, ou os riscos da intimidade entre velhos conhecidos.

Isto tendo como pano de fundo a Budapeste órfã de um império, que no rescaldo do Tratado de Trianon procura reencontrar-se e identificar-se, embora sempre tolhida por fantasmas do passado, como o antissemitismo e o peso da ilusão da Grande Hungria. É o clima no qual vamos encontrar fascinantes histórias contadas em torno do homem real que foi o Dr. Sándor Ferenczi, pioneiro da psicanálise, discípulo próximo de Sigmund Freud. Nas páginas deste livro, ele é o centro de um microcosmos apresentado por um narrador/confidente que se revelará um “desafio equestre”. Um barbeiro de seu nome Natanael, danificado pela guerra e duras origens, que por acasos da vida assume as rédeas de um estabelecimento na Rua Király, dentro do bairro judeu de Budapeste.

O mundo do Dr. Ferenczi é em simultâneo simples e complexo, balança entre a cadeira da barbearia, as toalhas quentes, a navalha, as conversas de ceia com Natanael, por um lado, mas também as esperanças da mulher-enigma Gizella, empenhada em enfeitar a realidade com chapéus elegantes – as deambulações, questiúnculas, avanços e recuos académicos de muitos dos outros membros da sociedade secreta do anel de Freud, ou aquelas dramáticas representações do potencial de desagregação humana, as clientes americanas que Ferenczi procura tratar através de um relacionamento terapêutico de proximidade e empatia, que redunda na inevitável contratransferência e em riscos indesmentíveis para o analista. Tudo enquanto se impõe uma anemia perniciosa, que aos poucos o leva e afadiga. É também interessante notar que a máxima cunhada por Ferenczi, de que “quem quer analisar os outros deve, em primeiro lugar, ser ele próprio analisado”, vislumbra-se ao de leve, aqui e ali, nas páginas deste romance com a presença discreta mas nomeada do compatriota Michael (Mihály) Balint, o mais fecundo seguidor de Ferenczi no que respeita ao estudo da relação médico-paciente.

A sessão em que debateremos a fundo «O Beijo de Éva Kiss», certamente com a presença do autor, está agendada para 30 de setembro, pelas 21h00 e terá como proponente a médica de família Pascale Charondière. A participação no Clube de Leitura está sujeita a inscrição prévia, é gratuita para os sócios da APMGF e tem um custo de 35 euros para não sócios (valor que permite participar no ciclo integral). No final do ciclo, todos os participantes do Clube de Leitura que tenham assistido às sessões em direto receberão um diploma de participação entregue pela APMGF.

Na perspetiva de Pascale Charondière, Budapeste é, em si mesma, “uma personagem do livro, que o impregna pelas suas ruas, os seus lugares, a centralidade da barbearia, os seus bairros, as suas fronteiras entre Buda e Peste constantemente cruzadas e emaranhadas. Mas também pela situação geográfica no centro da Europa Central (e não de Leste a que costumamos agora agregá-la), tal como Viena onde vive o Professor (Freud), cenário da intervenção do Doutor (Ferenczi), um dos seus discípulos e figura proeminente da psicanálise mundial. Budapeste é também cidade de encontro entre a elite intelectual do mundo ocidental que vem procurar tratamentos inovadores de Londres, Nova Iorque ou Paris, contestar, aderir, discutir uma forma de pensar a saúde mental”.

Nesta “Budapeste dos anos 20, que acaba de ser o cenário da implosão do Império Austro-húngaro, depois da hecatombe da I Guerra Mundial, onde tudo parece possível depois de ter desabado, onde tudo parece poder ser reescrito e inventado”, o leitor sente “de forma quase subliminar a presença do antissemitismo e os sinais da subida do nazismo que vai impactar diretamente esta comunidade, parte dela, judaica. Este cenário de incerteza, instabilidade, complexidade e densidade faz sentido quando estamos a explorar a própria mente humana”.

Para esta médica de família, é muito interessante perceber como José Falcão Tavares nos apresenta os vários intervenientes da ação e suas interseções: “no livro cruzam-se múltiplos personagens que podem mudar de nome, passar de narrador a personagem central e inversamente, ressurgir em fases diferentes das suas inter-relações, no seu papel de ator/cuidador ou paciente, de científico a pessoa comum. O livro é denso, deixando-nos perder nas múltiplas facetas de cada um. Como médica de família e orientadora de formação, dois aspetos surgiram como fonte de reflexão. Antes de mais, a relação entre mestre e discípulo, neste caso entre Freud e Ferenczi. Como deixar espaço e liberdade para o «discípulo» crescer e autonomizar o seu pensamento? Como reagir a esta criatividade que pode pôr em causa as próprias teorias sem cercear esta liberdade? A amizade fará sentido nesta hierarquia de papéis? Por outro lado, a relação médico-doente na área da saúde mental e a sua fluidez (na relação de Ferenczi e a própria Éva Kiss). Quem trata quem e até que ponto? E quando a relação se transforma numa relação de amizade/atração? Até onde e qual o sentido? Qual é o momento onde a relação deixa de ser terapêutica? Ou poderá sê-lo, com limites tão ténues? Nas duas situações, parece-me importante colocar palavras sobre estas intuições/emoções e ousar pensar sobre estas relações muitas vezes negadas, potencialmente explosivas. Para não deixar de pensar nos limites necessários ou, pelo menos, clarificados e nas relações de poder em jogo”.

Esta é, com evidência, uma obra que parte e termina na mente dos homens e das mulheres, provocadora na tentativa de gerar ideias sobre o que significa com rigor explorar o consciente e o subconsciente, numa dinâmica terapêutica, temas que fascinam desde há muito Pascale Charondière: “tenho particular interesse na área da saúde mental, área que aprofundei na prática integrando o Grupo de Saúde Mental de Sintra, grupo multidisciplinar que refletia e atuava nas situações clínicas mais complexas, nos anos 90. Ter algumas noções/bases de psicanálise faz parte da bagagem para explorar estas situações complexas, embora com pouca efetividade para intervir concretamente na melhoria da saúde dos utentes no contexto da MGF. Vários aspetos têm vindo a ser revalorizados perante a confirmações de algumas destas teorias apreendidas na relação com as recentes descobertas das neurociências. Por outro lado, estou fascinada pela história e muito interessada no período histórico do fim do século XIX e primeira metade do século XX. Alguns aspetos estão particularmente vivos entre as duas guerras: a pujança intelectual, científica e cultural, a ousadia, a liberdade de pensamento e de forma de vida, o papel ativo das mulheres, mas também um certo alheamento da realidade de parte das elites intelectuais/culturais, o esquecimento, ou o querer esquecer aquilo que acaba de acontecer e o distanciamento do que está quase a acontecer e já perpassa. Sabor doloroso e amargo, que pode nos dizer algo sobre o que estamos a viver hoje”.

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