É direito natural de qualquer mulher ou homem, em fases ulteriores da sua vida, olhar para trás e banhar-se na glória de lembranças passadas, entregar-se à delicia de evocar bons sentimentos e factos que reforçam o caminho percorrido. Mesmo que caia nas armadilhas profetizadas por Proust, empurrado por esse tempo que corre mais depressa do que nós e refém de uma memória que só se torna verdadeira quando involuntária. Tony Webster exerce tal direito, quando resgata os episódios com os colegas de escola Alex, Colin e Adrian (o mais promissor de todos), as façanhas performativas, tentativas de compreender o mundo com filosofias emprestadas e teorias metafísicas de recurso, as réplicas ao mundo adulto projetadas com máxima acidez, ou explorações sexuais mais ou menos por concluir. Os professores e respetivas provocações intelectuais, os interesses pela música e literatura encaradas então como perfeitas, a primeira namorada, Veronica Ford, tudo surge neste esforço de rememoração com uma tonalidade rosa e um certo conforto para o narrador até um acontecimento traumático (o suicídio de Adrian) gerar uma fratura que Tony vai depois mitigando com o desenrolar de uma existência banal.
Porém, uma notícia imprevisível vem desequilibrar Tony nestes anos dourados e altera a sua perceção do antes e do agora, de quem é e foi, bem como a dinâmica da história e introduz na consciência de quem narra e de quem lê a certeza de que o tempo é um ilusionista. Eis «O Sentido do Fim», de Julian Barnes, obra vencedora do Man Booker Prize 2011, que será o centro da próxima sessão do Clube de Leitura APMGF, no dia 11 de novembro (21h00), uma proposta da médica de família Conceição Balsinha. A participação no Clube de Leitura está sujeita a inscrição prévia, é gratuita para os sócios da APMGF e tem um custo de 35 euros para não sócios (valor que permite participar no ciclo integral). No final do ciclo, todos os participantes do Clube de Leitura que tenham assistido às sessões em direto receberão um diploma de participação entregue pela APMGF.
Ao avançarmos nas páginas de «O Sentido do Fim», entendemos, é claro, que estamos perante um narrador prazenteiro embora não confiável, mas notamos ainda que a ação ganha outros contornos e que de um ambiente quase observacional e especulativo, com ênfase naqueles anos formativos e de liceu, somos transportados para um cenário bem diferente, após Tony receber uma carta dos advogados da mãe de Veronica. Na sequência da missiva, Tony – nesta fase um velho aposentado – fica a saber que a mãe de Veronica, Sarah, lhe deixou em testamento uma pequena quantia de dinheiro e sobretudo o diário do malogrado Adrian. O baú das memórias terá, pois, de ser remexido. O desfecho é cruel e exige que Tony repense todas as convicções que carregava, a torre de evidências que erigiu em areias movediças.
“Escolhi este livro porque nos confronta com uma pergunta que me interessa particularmente: até que ponto conhecemos a nossa própria história? Intrigam-me as rasteiras que a memória nos prega. Nem sempre tive consciência da distância entre aquilo que vivemos, aquilo de que nos lembramos e aquilo que precisamos de acreditar sobre nós próprios”, testemunha Conceição Balsinha. A proponente da obra aprecia “a ironia e o sentido de humor de Barnes”, assim como a sua “capacidade de dizer tanto num livro tão breve” e destaca a circunstância de em «O Sentido do Fim» a passagem do passado para o presente ser notória e dicotómica: “o passado chega-nos já organizado pelo narrador; o presente, pelo contrário, ainda está a acontecer, com tudo o que tem de intrigante e imprevisível. Não o conseguimos arrumar da mesma maneira”.
Conceição Balsinha confessa ter-se interessado “especialmente pelo balanço que o narrador faz da sua vida na parte final. Fez-me pensar no conflito entre integridade e desespero descrito por Erikson: olhar para a vida percorrida e procurar aceitá-la, sem deixar de reconhecer os arrependimentos. Barnes descreve muito bem a experiência de percebermos que talvez não tenhamos sido a pessoa que julgávamos ser. Mas não oferece uma reconciliação fácil; compreender melhor o passado não significa poder corrigi-lo, e pedir desculpa não garante que o outro nos absolva. Há coisas que já não podemos reparar. E também temos de aprender a viver com isso”.
Sobre o narrador, admite que confia “na sua sinceridade, mas não necessariamente na exatidão das suas recordações. Acredito que ele próprio acredita na versão que construiu de si e, por isso, não o considero simplesmente mentiroso. A memória não se limita a falhar, também seleciona, suaviza e reorganiza aquilo que ameaça a imagem que temos de nós próprios. Nesse sentido, posso confiar na honestidade com que o narrador procura compreender o passado e, ao mesmo tempo, manter dúvidas sobre aquilo que nos conta”. Crê também que o final do livro “convida a regressar ao início, porque a segunda parte transforma a nossa leitura da primeira. Diria, contudo, que o livro se aproxima mais de uma espiral do que de um círculo. Regressamos aos mesmos acontecimentos, mas já não estamos no mesmo lugar. E esse regresso não elimina as lacunas, as ambiguidades ou as perguntas. É também essa dificuldade em chegar a uma conclusão definitiva que torna o livro tão interessante”.
E a quem recomenda a obra Conceição Balsinha? “A quem goste de refletir sobre a passagem do tempo, acompanhando o olhar do narrador sobre a juventude a partir de uma fase mais tardia da vida. Mais do que uma questão de idade, parece-me uma questão de disponibilidade: para revisitar o passado, desconfiar das próprias certezas e aceitar que nem tudo pode ser esclarecido. É um bom livro para quem não se importe de chegar ao fim com mais algumas perguntas sobre si próprio”.
Julian Barnes nasceu após o final da II Guerra Mundial, em Leicester, num Reino Unido que procurava reconstruir-se e reencontrar-se. Dividiu a produção literária sobretudo entre a crítica (com contributos para publicações como o Times Literary Supplement e o New Statesman), o ensaio e a ficção, com óbvio pendor para romances que exploram personagens obcecadas com a clarividência dos factos e curiosas em relação ao passado.
É uma voz complexa e multifacetada no mundo das letras e apesar de, para muitos, ser reconhecido mormente pelo talento no campo ficcional, merece especial atenção o corpo de trabalho que foi construindo no âmbito da não ficção, através de títulos como «Something to Declare» (2002), coletânea de ensaios sobre a França e a cultura francesa, «O Pedante na Cozinha» (2003), no qual dá azo ao amor pela gastronomia, o volume de memórias «Nada a Temer» (2008), no qual apresenta um olhar honesto sobre a relação com os pais e o irmão mais velho, «Through the Window» (2012), mergulho nas suas influências literárias, «Os Níveis da Vida» (2013) – viagem pela primórdios da fotografia área e pelo balonismo que é em simultâneo uma homenagem à esposa que perdeu – ou «O Homem do Casaco Vermelho» (2019), em que Barnes recorre à história do cirurgião francês Samuel Pozzi, imortalizado em tela com um sumptuoso casaco vermelho pelo pintor John Singer Sargent, para nos levar à Paris da Belle Époque.
Em 2026, lançou aquele que afirma ser o seu último romance, «Partida». A obra mescla ficção e relato autobiográfico, com reflexões do narrador sobre a mortalidade e o envelhecimento e centrando-se num escritor chamado Julian que luta contra um cancro (desafio que reflete a própria realidade de Barnes).












