Jonathan dos Santos (Diretor Clínico das Unidades CUF de Paredes, Lousada e Marco de Canaveses e Assistente Convidado da Universidade de Aveiro) é o mais recente especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) a concluir provas de doutoramento, na circunstância na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), apresentando a tese «Cardiac point-of-care ultrasound in primary care: improving early detection and management of cardiovascular disease».
O júri das provas foi presidido por José Manuel Estevão da Costa (FMUP), integrando ainda como membros Carlos Manuel da Silva Martins (RISE-Health – Universidade do Porto), Ricardo Fontes-Carvalho (FMUP), Elisabete Martins Bernardes (FMUP), Nuno Miguel Almeida Cardim (NOVA Medical School) e Inês Rosendo (Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra), desempenhando os últimos dois a função de arguentes. A orientadora da tese foi Alexandra Gonçalves (especialista em Cardiologia, ex-Professora Afiliada da FMUP e atual Vice Presidente e Head of Cardiovascular Medical Affairs na Bristol Myers Squibb – EUA) e o co-orientador Francisco Rocha Gonçalves (Professor Catedrático Jubilado da FMUP).
A tese em causa investigou a aplicação da ecografia point-of-care (POCUS) cardíaca nos cuidados de saúde primários (CSP) como ferramenta para a deteção precoce e a melhoria da gestão da doença cardiovascular, com enfoque na insuficiência cardíaca. Integrou um estudo observacional (PLAN-HF) – que avaliou o impacto do POCUS realizado pelo médico de família nas decisões clínicas em consulta real –, um caso clínico publicado que ilustra o seu potencial e o desenho de um ensaio clínico aleatorizado (PRIMARY-HF), destinado a confirmar o benefício e a custo-efetividade desta abordagem.
“Esta tese teve como objetivo perceber se a ecografia point-of-care (POCUS) cardíaca, realizada pelo próprio médico de família durante a consulta, permite detetar mais cedo e gerir melhor a doença cardiovascular no primeiro nível de contacto com o sistema de saúde. No estudo observacional PLAN-HF, o POCUS reclassificou 55 doentes de um estádio sem doença estrutural para um estádio de pré-insuficiência cardíaca (A para B), identificando alterações que a avaliação clínica e o eletrocardiograma não detetavam. A abordagem reduziu em cerca de dois terços o número de ecocardiogramas formais pedidos e permitiu uma avaliação mais rigorosa da congestão, com impacto direto nas decisões terapêuticas”, lembra Jonathan dos Santos.
O novo doutorado acrescenta que os resultados da investigação empreendida sugerem que “o POCUS pode antecipar o diagnóstico e racionalizar o recurso a meios complementares, sem perda de informação clínica. A tese assume, com transparência, que a confirmação do benefício clínico a longo prazo e da custo-efetividade exige um ensaio aleatorizado, precisamente o objetivo do estudo PRIMARY-HF, que dá continuidade a este trabalho”.
Para Jonathan dos Santos, é importante ressalvar o facto de a pergunta que orienta a tese ter nascido em contexto de consulta: “é no contacto diário com os doentes e com as limitações reais dos CSP que se percebe quantas vezes a insuficiência cardíaca avança em silêncio antes de dar sinais, em particular numa fase inicial em que os sinais e sintomas, tão inespecíficos, são associados ao envelhecimento. Quis perceber se poderia fazer mais e melhor no espaço de uma consulta, e a ecografia point-of-care surgiu-me cedo como uma resposta possível a essa inquietação”.
O jovem médico de família sublinha, por outro lado, as implicações práticas para o crescimento da especialidade que a sua investigação poderá ter no presente e no futuro: “mais do que um trabalho académico, este percurso foi um esforço para trazer uma ferramenta útil para junto de quem dela mais precisa e para a partilhar com colegas, através do ensino e do trabalho colaborativo na Medicina Geral e Familiar. Espero que o doutoramento reforce a investigação na Medicina Geral e Familiar, una as várias especialidades e ajude a afirmar o papel do médico de família na inovação clínica e na colaboração multidisciplinar. No plano pessoal, é o culminar de um percurso de dedicação e a base para continuar a estudar, a ensinar e a cuidar, sempre com o doente no centro”.
A fechar as suas bem-sucedidas provas de doutoramento, Jonathan dos Santos contou ainda com uma surpresa de grande significado: “recebi uma antiga doente minha que fez parte do estudo e veio para me felicitar e declamar uns versos que escreveu. Foi um momento inesperado, mas na ocasião certa para realçar que a relação médico-doente continua a ter uma força incontornável e que, mais importante do que publicar ciência, é aplicá-la para oferecer o melhor que o doente merece”.

















