Foi lançado na sede da APMGF em Lisboa o «Guia para Uso Racional das Benzodiazepinas na Prática Clínica», obra editada pela Bial e que conta com o apoio institucional da APMGF. Trata-se de um instrumento que traduz evidência científica atualizada numa linguagem clara e diretamente aplicável à consulta, apoiando o profissional de saúde (e, em primeira linha, o médico de família – MF) em decisões que vão desde a indicação inicial até aos processos, muitas vezes complexos, de alteração ou descontinuação terapêutica.
Na sessão de apresentação do guia Pedro Morgado, psiquiatra no Hospital de Braga, docente, investigador na Universidade do Minho e co-autor do guia, sustentou que a obra tem como um dos princípios basilares da sua construção a ideia de que este tipo de fármacos precisa de ser encarado num contexto alargado, que vá para além dos debates comuns na comunidade médica, quase sempre restringidos às metodologias de interrupção: “hoje em dia, há uma tónica muito grande em destacar aquilo que é negativo no uso das benzodiazepinas e promover o processo de descontinuação das mesmas. Muitas vezes até por pessoas que não têm experiência clínica, que não têm o contacto direto com os doentes mas são céleres a afirmar que estes medicamento são para retirar do plano terapêutico. Ora, na prática clínica, nós que estamos próximos dos doentes, vemos que estes fármacos são em muitos casos fundamentais”.
O psiquiatra do Hospital de Braga garante também ser indispensável não esquecer que “o processo de descontinuação faz parte de um processo maior, que é o do uso racional destes medicamentos. Assim, a história que escolhemos contar neste guia foi uma história preocupada com o diagnóstico das doenças e com a definição do plano de tratamento para o doente específico que temos à nossa frente (…) Penso que um dos pontos a salientar no nosso guia é, aliás, essa capacidade de destacar as características de cada benzodiazepina, que influem na seleção do tratamento e da resposta adequada àqueles que são os problemas apresentados pelos nossos doentes”.
Para Pedro Morgado, este guia acaba também por transmitir a todos colegas uma mensagem de fundo, a de que “uma boa utilização das benzodiazepinas implica começar bem, monitorizar bem e ter um plano para terminar bem. Precisamos de cuidar de todas as fases envolvidas na utilização destes fármacos, não apenas conservar o foco numa das fases. Ou seja, não podemos preocuparmo-nos só com a escolha inicial do medicamento, com a continuidade para sempre do tratamento ou com a variável da descontinuação, devemos olhar para o tratamento da pessoa numa perspetiva global”.
De acordo com a co-autora da obra Joana Monteiro (médica de família na USF Oceanos, membro do Grupo de Estudos de Medicina Centrada na Pessoa da APMGF e docente na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto), “o objetivo do guia não é o de promover a prescrição de benzodiazepinas, mas sim perceber em que situações estas estão indicadas, de que forma devem ser prescritas, a maneira correta de fazermos a reavaliação e, se necessário, como desenvolver um plano de descontinuação. O conceito central do guia passa por promover o uso racional deste fármaco, que faz parte do nosso dia-a-dia de trabalho. Destina-se a todos os médicos, embora com especial enfoque para os MF, até porque sabemos que são, muitas vezes, a primeira linha de contacto com estes doentes, que nos procuram para resolver problemas de ansiedade e de saúde mental. Por outro lado, acompanhamos muitos doentes que nos chegam já com estes fármacos prescritos e levanta-se, não raras vezes, a dúvida sobre se é prudente manter ou não a toma de determinada benzodiazepina, realizar a sua troca ou descontinuação, até que ponto os benefícios superam os riscos ao manter-se a terapêutica. Tentámos, pois, que este guia fosse ao encontro de respostas rápidas para estas questões”.
Joana Monteiro reconhece que se verificou ao longo dos últimos anos, face ao elevado recurso a estes fármacos no nosso país, “uma certa demonização das benzodiazepinas. Porém, o eixo de análise deve recair sobre o uso racional das mesmas, não na tarefa de demover os colegas de as prescreverem. Devemos recentrar a discussão na forma correta de utilizar estes medicamentos, ao invés de pensar somente na sua descontinuação, embora haja na realidade casos em que tal opção está indicada”.
A MF da USF Oceanos destaca, ainda, a circunstância de a obra ter nascido com o propósito de ser um auxiliar para o dia a dia, não um volume a colocar na biblioteca: “queríamos que fosse uma síntese prática, um guia de fácil utilização, que todos os colegas pudessem ter no seu consultório e folhear”. A autora frisa, em paralelo, que o guia agora disponível é, na realidade, um auxiliar que se desdobra em dois: “queríamos um guia que fosse prático, fácil de utilizar na consulta, mas sem deixar de ter a fundamentação científica de tudo o que ele contém, até para que as pessoas percebessem de que não se trata de um esforço empírico, somente uma reflexão nascida da nossa prática clínica individual. Por isso, existe a possibilidade de consultar, num documento mais detalhado, toda a fundamentação científica, documento esse acessível através de um link disponibilizado no final do guia”.
Já Margarida Silva (MF na USF Génesis e membro da Coordenação do Grupo de Estudos de Saúde Mental da APMGF) recordou que “Portugal é um dos países da OCDE que tem uma das maiores taxas de prescrição de benzodiazepinas. Um grande estudo nacional – embora realizado já há algum tempo – estima que 1,5 milhões de portugueses tenham recebido prescrição de benzodiazepinas Isto, no fundo, corresponde a quase 15% da população”. Do mesmo modo, frisou que estes são medicamentos com um perfil farmacológico amplo, ansiolítico, sedativo, relaxante, anticonvulsivante, o que os torna propícios a serem usados “para muitos fins e que muitas vezes conduzem a um uso prolongado, a insegurança, dependência e a dificuldade em interromper. Por isso, é vital falarmos sobre este tema sem que, ao mesmo tempo, possamos cair no erro de desvirtuar estas moléculas”.
Na perspetiva de Deolinda Chaves Beça. membro da Direção do Colégio de MGF da Ordem dos Médicos que moderou esta sessão de apresentação, o surgimento do guia em 2026 é mais do que pertinente: “este é um tema muito querido para nós todos. Não há ninguém que não possua um caso destes na consulta. Temos, de facto, de saber equilibrar os benefícios do medicamento com a sua forma de utilização mais adequada para as necessidades da pessoa. Tencionamos, como tal, que todos saiam após o contacto com este guia capazes de fazer uma prescrição mais informada, criteriosa e responsável”.






















