Sob o lema «Tradição que inspira, conhecimento que evolui», as 12ª Jornadas GRESP, a decorrerem na cidade de Coimbra, reúnem mais de 600 inscritos com participação presencial e quase três centenas de congressistas on-line, para dois dias dedicados à partilha da mais atualizada ciência e boas práticas na área respiratória, sempre com um enfoque especial na inovação e nos caminhos do futuro para a prestação de cuidados respiratórios no âmbito da Medicina Familiar e dos cuidados de saúde primários.
Pedro Fonte, novo coordenador do GRESP, sublinhou no arranque dos trabalhos que “pela primeira vez temos dois presidentes das Jornadas, que são em simultâneo coordenador cessante e novo coordenador do GRESP. Isto não foi apenas uma decisão formal, representa o equilíbrio entre a continuidade e a renovação que nós procurámos traduzir no lema desta iniciativa e que faz parte da forma como o GRESP tem sabido crescer ao longo dos anos”.
Já Cláudia Almeida Vicente, coordenadora cessante do GRESP e presidente do IPCRG, acredita ser o espírito individual de cada membro deste grupo de estudos que contribui para a grandeza do mesmo e das suas façanhas: “o GRESP é um grupo unido e eu penso que o reflexo disso é o trabalho que vimos a desenvolver. Este trabalho, que transparece em tudo aquilo que vos fazemos chegar, nas nossas apresentações e encontros anuais, nasce também de um grupo de médicos que, obviamente, encontraram pontos pessoais em comum e que trabalharam neste interesse mútuo pelas doenças respiratórias. Tal visão multidisciplinar e de futuro, integradora, traduz-se integralmente nestas jornadas”.
Como tem sido habitual nos últimos anos, o GRESP tem convidado grandes figuras de referência internacional para dialogar com os colegas portugueses nestas jornadas e este ano não foi exceção. Assim, foi um privilégio ouvir Ioanna Tsiligianni, professora de MGF e Saúde Pública na Universidade de Creta (Grécia) e presidente eleita da Região Europeia da WONCA abordar a temática dos grandes desafios no domínio respiratório para os médicos de família e médicos de saúde pública europeus. “Lá fora, encontramos um mundo com enormes desafios respiratórios para todos nós. A DPOC, a Asma e as Doenças Pulmonares Intersticiais são muito comuns e os médicos de dos CSP estão obrigados a gerir não só estas patologias mas outros aspetos fortemente condicionantes da saúde respiratória, como a exposição à poluição do ar, a exposição ocupacional ou ao fumo do tabaco. Também as desigualdades sociais são importantes na gestão das doenças respiratórias e tudo isso tem de ser concretizado através de um framework de prevenção integrada e de uma abordagem à saúde abrangente”, explicou Ioanna Tsiligianni.
A responsável da Região Europeia da WONCA reforçou, por outro lado, a necessidade de as “políticas públicas de saúde terem de mudar em múltiplos domínios, com realce para as ações conducentes a um ar mais limpo e condições climatéricas estáveis. Por outro lado, enquanto médicos dos CSP também possuímos missões fundamentais ao nível populacional e o dever de intervir nestes campos, monitorizando a qualidade do ar, a exposição dos nossos utentes ao tabaco, o cumprimento da vacinação, a adequação das políticas sociais, ou o bom equilíbrio nutricional, por exemplo, responsabilidades das quais por vezes nos esquecemos”.
Para Ioanna Tsiligianni, é também crucial que os médicos dos CSP comecem a encarar os seus pacientes como valiosos ativos para o crescimento do conhecimento científico: “nos nossos consultórios e unidades dos CSP, na nossa prática clínica diária, temos de aproveitar a presença dos nossos doentes para a investigação clínica. É muito importante alargar a investigação nesta área. Um bom exemplo é o estudo epidemiológico em Creta relacionado com fumo do tabaco e cancro do pulmão, que nos permitiu identificar as áreas onde a população regista maiores taxas de consumo de tabaco e de diagnóstico de cancro do pulmão. Isto é muito relevante para conhecermos a fundo a região onde trabalhamos e pela qual somos responsáveis, na medida em que nos permite retirar medições mais precisas”.
Outro tema que pontuou estas jornadas é a aplicação da inteligência artificial na melhoria dos cuidados respiratórios. A esse propósito, Alexandre Gouveia (MF na Unisanté Universidade de Lausanne e vice-diretor da Escola de Formação Pós-graduada da Faculdade de Biologia e Medicina da Universidade de Lausanne) frisou a circunstância de existirem já diversas aplicações baseadas em IA que se podem tornar um auxílio precioso no dia-a-dia dos profissionais: “contamos hoje com uma aplicação como o ResApp, que permite através das características acústicas da tosse, apoiar o diagnóstico de algumas doenças comuns em idade pediátrica. Assim, vamos cada vez ter mais fontes de informação clínica associadas àquilo que são as novas tecnologias, que nos permitirão catapultar novas formas de integrar a imagem, função pulmonar, os sons respiratórios, os dados clínicos, a monitorização e utilizar estas ferramentas integradas no ambiente clínico do futuro”. Alexandre Gouveia trouxe à baila também o avanço que pode ser alcançado ao nível da interpretação de espirometrias graças à IA: “através de um estudo realizado na região de Londres, com mais de 1.100 doentes com resultados de espirometria e dados demográficos básicos, foi possível perceber que a IA era capaz – com sensibilidade em torno dos 84% e especificidade de 87% – de diagnosticar corretamente a DPOC. Dada a dificuldade que existe nos cuidados primários de interpretar os resultados de espirometrias, esta pode ser realmente uma utilização interessante na Medicina Geral e Familiar”.
Janwillem Kocks, professor de Medicina Inalatória no Observational and Pragmatic Research Institute (Singapura) e diretor administrativo do General Practitioners Research Institute em Groningen (Países Baixos), partilhou por seu turno com os colegas portugueses os bons resultados obtidos com o recurso à oscilometria enquanto alternativa à espirometria: “trata-se de uma tecnologia relativamente antiga, que remonta aos anos 50 do século passado, mas que tem vindo a ser adaptada com sucesso à prática clínica quotidiana. É uma solução muito importante nos CSP, porque é fácil de utilizar e os doentes gostam dela, uma vez que implica apenas inspirar e expirar através de um equipamento, permitindo-nos retirar um resultado útil a partir de tal medição com enorme rapidez”. O colega dos Países Baixos aproveitou também esta passagem por Portugal para abordar os biomarcadores vocais: “a voz transporta muita informação e se as pessoas tossirem, respirarem ou sustiverem um som junto ao microfone do seu smartphone é possível com essa informação obtermos uma predição sobre a presença de DPOC. Estas ferramentas, que podemos usar hoje e no futuro, têm a capacidade de facilitar em muito a nossa vida enquanto MF e a dos nossos doentes”.































