Durante o internato de Medicina Geral e Familiar (MGF), a observação da prática clínica de outros médicos constitui um pilar fundamental para o desenvolvimento profissional. Este contacto permite não só consolidar conhecimentos, mas também refletir sobre a forma de prestação de cuidados, enriquecendo o percurso formativo e promovendo uma melhoria do desempenho clínico futuro. Com o objetivo de conhecer outro sistema de saúde e observar diferentes modelos de organização dos Cuidados de Saúde Primários (CSP), candidatei-me ao Hippokrates Exchange Programme, no âmbito do qual tive a oportunidade de realizar um estágio em Berlim.
Durante este período, foi possível estabelecer uma comparação entre os sistemas de saúde português e alemão. Na Alemanha, o sistema de saúde assenta num modelo de seguro de saúde obrigatório, que pode ser público – o tipo que abrange a maioria da população – ou privado. Este modelo garante acesso aos diversos prestadores de cuidados de saúde, incluindo clínicas privadas de médicos de família/clínicos gerais (Hausarztpraxen), consultas de especialidade em regime ambulatório e hospitais públicos, privados ou geridos por instituições sem fins lucrativos.
Os CSP são maioritariamente prestados em clínicas privadas, sendo dada ao doente a possibilidade de escolher o seu Médico de Família. Nestas clínicas é assegurado o acompanhamento dos utentes, a gestão de patologias agudas e crónicas, a promoção da saúde, a prevenção da doença e a referenciação para cuidados especializados, sempre que necessário.
O estágio decorreu entre 10 e 21 de novembro de 2025, na Hausarztpraxis am Tierpark (Silke Mockett e Dr. med. Christian Grabow) e tive como anfitriã a Dr.ª Silke Mockett. Trata-se de uma clínica privada inserida num edifício partilhado com outras especialidades e a equipa é constituída por dois médicos e três enfermeiras. A clínica disponibiliza consultas agendadas no próprio dia para situações agudas, consultas programadas de rotina, seguimento de doenças crónicas, vacinação e tratamento de feridas. Dispõe ainda de laboratório para colheitas analíticas, realização de eletrocardiogramas e espirometrias, recursos que reforçam a capacidade diagnóstica e a continuidade de cuidados em contexto de CSP.
As consultas de rotina ou de seguimento de doenças crónicas tinham, habitualmente, a duração de 15 minutos. Já as consultas para situações agudas eram realizadas no período da manhã (entre as 8 e as 10 horas), por ordem de chegada, sem limite pré-definido de atendimentos e sem duração estabelecida.
Uma diferença relevante prende-se com o âmbito de atuação do Médico de Família: ao contrário do que acontece em Portugal, na Alemanha a maioria dos clínicos gerais dedica-se apenas à saúde do adulto, ficando a saúde infantil e a saúde da mulher sob responsabilidade da Pediatria e da Ginecologia/Obstetrícia, respetivamente (apesar de existirem médicos que optam por observar e seguir também crianças).
Consequentemente, a totalidade das consultas observadas envolveu adultos, sobretudo doentes idosos e pessoas com patologias crónicas, como diabetes mellitus, hipertensão arterial e doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC). Nas faixas etárias mais jovens (30 a 40 anos), as consultas centraram-se sobretudo na prevenção (realização de consulta de rotina), na saúde mental e na gestão de fatores de risco ou doenças crónicas emergentes.
No acompanhamento das doenças crónicas, observaram-se diferenças sobretudo ao nível dos intervalos entre consultas e dos instrumentos de avaliação utilizados, por exemplo, para cálculo do risco cardiovascular. Contudo, a escolha terapêutica e os objetivos clínicos foram, na maioria dos casos, semelhantes. Sempre que necessário, os doentes foram referenciados para outras especialidades – para observação ou realização de exames – sendo a comunicação realizada através de cartas de referenciação. Posteriormente, era enviado ao Médico de Família um relatório da consulta de especialidade, resultados de exames ou relatório do internamento hospitalar, por carta ou email, não existindo um sistema informático integrado.
A vacinação foi um tema transversal nas consultas observadas, existindo lugar para a recomendação da mesma sempre que aplicável. Ao contrário do que acontece em Portugal, vacinas como as pneumocócicas, a do Herpes Zoster e a do Vírus Sincicial Respiratório são comparticipadas pelo seguro de saúde alemão, quando cumpridos os critérios de elegibilidade, o que poderá contribuir para uma maior adesão à vacinação.
Também os programas de rastreio apresentam diferenças. O rastreio do cancro do colo do útero inicia-se aos 18 anos, com citologia anual, passando a incluir pesquisa de HPV a partir dos 35 anos (com periodicidade trienal). O rastreio do cancro da mama começa aos 50 anos, mantendo método e intervalos semelhantes aos praticados em Portugal. Estes rastreios são realizados em consulta de Ginecologia, cabendo ao Médico de Família assegurar que a utente se encontra devidamente integrada no programa. Em contrapartida, o rastreio do cancro colorretal é bastante semelhante nos dois países.
Uma particularidade do sistema alemão é o chamado “check-up de saúde” para adultos: entre os 18 e os 34 anos, o seguro de saúde inclui uma consulta de avaliação global; após os 35 anos, esta pode ser repetida de três em três anos. Estava avaliação engloba consulta médica, estudo analítico (sangue e urina), bem como rastreio das hepatites B e C.
Após a conclusão deste estágio, tornou-se evidente a existência de semelhanças e diferenças relevantes entre os dois sistemas de saúde. As discussões clínicas e a partilha de perspetivas revelaram-se particularmente enriquecedoras, estimulando uma reflexão crítica sobre práticas estabelecidas. Enquanto médicos internos, procuramos continuamente experiências que promovam o nosso crescimento profissional, o que implica questionar procedimentos, manter abertura a novas abordagens e integrar aprendizagens.
Esta experiência permitiu-me compreender melhor o funcionamento dos CSP noutro contexto e evidenciou que, apesar das diferenças no modelo organizacional, o Médico de Família mantém um papel central no sistema alemão, assumindo a gestão da grande parte dos problemas de saúde e a coordenação de cuidados.
Não menos importante, este intercâmbio deu-me a oportunidade de conhecer melhor Berlim, uma cidade vibrante, marcada pela sua energia jovem e multiculturalidade. Foi possível não só explorar a cidade, mas também vivê-la como uma local, integrando-me no quotidiano e contactando com a realidade da cidade.
Assim, quero agradecer à APMGF, WONCA e EURACT esta oportunidade. Recomendo, sem hesitação, este tipo de intercâmbio a outros colegas – o contacto com diferentes realidades, sistemas e culturas constitui uma oportunidade única de crescimento, não apenas enquanto profissionais, mas também enquanto pessoas.















