“O Médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe”, dizia o médico Abel Salazar. Este mote sempre definiu o meu percurso como médica e apesar de se adequar a qualquer médico, de qualquer especialidade, tem uma grande ressonância junto da especialidade de Medicina Geral e Familiar (MGF), que não olha o utente apenas como uma pessoa que pode ou não ter certas doenças. Nós acompanhamos o doente no seu todo, a nível da saúde física e mental, dentro da sua comunidade e contexto cultural e social.
Na ânsia de querer alargar as minhas perspetivas na gestão da saúde dos nossos utentes, o conhecimento de como esta gestão é feita num país diferente alinhou-se com os meus objetivos e consegui esta experiência através do Hippokrates Exchange Programme, apoiado pela WONCA e pela EURACT. Quando chegou a altura de escolher onde o realizar (voltando aqui ao mote inicial), surgiu a oportunidade de realizar este estágio numa unidade de Cuidados de Saúde Primários (CSP) numa cidade muito próxima de Viena, Schwechat, com uma variedade de culturas a coexistirem no mesmo sítio, tendo sido notório o esforço da equipa em acompanhar várias famílias migrantes (principalmente de países vizinhos), pois vários membros falavam múltiplas línguas, tendo observado consultas inclusive em Português! Genau.
O sistema de saúde a nível dos CSP também não poderia ser mais díspar da realidade portuguesa – e aqui agradeço a toda a equipa do PVZ-Schwechat, que tirou tempo do seu dia (e como sabemos, tempo no nosso dia-a-dia de trabalho já é muito escasso) para me explicar toda a organização e gestão.
Os primeiros centros de saúde (PVZ – Primärversorgungszentrum) da Áustria surgiram em 2015, sendo a especialidade de MGF reconhecida apenas recentemente. Um médico interno para terminar a especialidade de MGF, para além dos anos que deve fazer a nível hospitalar, apenas tem que realizar no final do seu percurso 9 meses a nível dos CSP. As PVZ acabam por funcionar num sistema económico híbrido, trabalhando diretamente com seguradoras, mas fazendo parte do sistema de saúde público, aberto e acessível a toda a comunidade. Dado as clínicas serem privadas, podem definir o horário em que estão abertas, sendo um problema de acessibilidade em vários locais do país.
No PVZ-Schwechat há um esforço contínuo para garantir acessibilidade à comunidade em que a clínica está inserida, sendo das primeiras clínicas a abrirem doze horas por dia (das 07h00 às 19h00 nos dias úteis e durante um período aos sábados). O impacto nesta comunidade é notório, pela alta procura e afluência que pude verificar diariamente, pelos mais variados problemas. Apesar desta grande acessibilidade, como a equipa é atualmente constituída por 5 médicos, o número de horas que estes realizam semanalmente é inferior às 35-40 horas semanais que por norma cumprimos em Portugal, havendo muito maior flexibilidade e valorização do tempo de lazer – algo que apreciei ver ser reconhecido e que, demasiadas vezes, vemos esquecido em Portugal.
A remuneração também é muito diferente do sistema português, o que permite este menor número de horas de trabalho: o médico recebe per capita, ou seja, por utente observado e extra por procedimentos realizados, sendo a remuneração bastante mais elevada do que em Portugal – uma problemática que nós temos vindo a tentar combater nos últimos anos. Notei ainda vários outros esforços para garantir a saúde e bem-estar dos profissionais nesta clínica: no primeiro dia, fui logo convidada a usufruir do café, água e fruta, que são disponibilizados a todos os profissionais, gratuitamente; salas climatizadas e com luz natural podiam ser encontradas ao longo de toda a clínica, incluindo uma sala – a famosa copa – que constituía um espaço agradável e isolado da área de observação dos pacientes, em os que os profissionais podiam conviver e relaxar.
A nível de atendimento direto com o utente, as principais diferenças que encontrei é que a Medicina nos CSP é mais praticada como clínica geral, dado a especialidade ter sido reconhecida há bastante pouco tempo; a maioria das consultas são dirigidas a um problema específico, mas notando-se que há uma preocupação crescente em fazer um acompanhamento e vigilância de patologias crónicas cada vez mais especializado.
Algumas diferenças major passam por não haver consulta de planeamento familiar (todas as situações de saúde da mulher são orientadas por Ginecologia/Obstetrícia), consultas de vigilâncias específicas como HTA e diabetes (apesar de existir um programa em que podiam inscrever os utentes diabéticos para terem vigilância) e saúde infantil, sendo norma que nas idades mais jovens as crianças sejam observadas apenas por Pediatria. A nível de infraestrutura, esta clínica tinha ECG e análises no edifício, espaço de trabalho específico atribuído à equipa de Enfermagem, o que facilitava a orientação de inúmeros casos, centralizando naquela comunidade diferentes cuidados.
Algo que inquestionavelmente é comum a ambos os países, para além do esforço continuo que encontrei na tentativa de melhoria dos cuidados oferecidos à comunidade, é a sensação de que a especialidade ainda não é reconhecida e verdadeiramente valorizada – situação que se agrava num país em que a mesma foi reconhecida muito recentemente, ainda carecendo de uma melhoria na estruturação do plano formativo ao longo do internato, sendo que o foco atualmente, mesmo para quem se quer dedicar aos CSP, continua a ser maioritariamente a nível hospitalar.
Relembro que existem ainda países, dentro da Europa, sem a especialidade reconhecida, o que significa que a MGF ainda muito tem que batalhar, e acredito que parte desse trabalho cabe a cada um de nós, que reconheceu na MGF o papel fulcral no desenvolvimento de cada indivíduo da nossa comunidade.
Acredito que uma forma de continuarmos a fazer este trabalho é através destas iniciativas, que nos colocam em contacto com colegas além-fronteiras, de forma a aprendermos modos diferentes de operar, a nível organizacional, a nível clínico e científico, dentro de contextos completamente diferentes. Por uma MGF mais abrangente, encorajo que mais colegas realizem intercâmbios e que este tipo de iniciativas se torne possível e mais rotineiro quer para médicos internos, quer para médicos especialistas, pois a aquisição de conhecimento nunca acaba, principalmente para aquele médico que sabe muito mais para além de Medicina.



















